A tradição permanece viva - Dia do Gaúcho

Revista Guia
20 de Setembro, 2017 816

Publicado em: 20/09/2017 às 09:57

Atualizado em: 20/09/2017 às 10:12

A família Leonhart é tradicional em nosso município, e quando o assunto em pauta era o tradicionalismo gaúcho, não houve dúvidas que os entrevistados para falar sobre o assunto seriam eles.

Em uma noite de muita chuva, eles receberam a redação da Revista Guia no Galpão criado por Nilson Leonhart, patriarca da família, e da cultura vivida pelos filhos, netos, e amigos até os dias de hoje.

Ao iniciar a entrevista, um convite fora feito, quase que irrecusável, todas as luzes foram apagadas, e a conversa foi guiada e iluminada apenas pela Chama Crioula, tradicional e parte da cultura e da vida dos gaúchos.

 Qual o motivo de estarmos no escuro? ? "Antigamente quando a gauchada se reunia não havia luz mecânica, era o fogo do churrasco ou a chama crioula que iluminava o ambiente. A impressão é de que fica mais aconchegante. Ninguém olha o rosto de ninguém, todo mundo é igual, ninguém é mais bonito que o outro, não há cores. O amor pela tradição é único. Esse é um costume que temos aqui em casa, quando se reunimos tem muito som, gaita, violão, sempre música boa tradicionalista. E fazemos isso, desligamos as luzes, deixamos só o necessário", conta Rodrigo Leonhart, irmão de Nérisson e Leandro Leonhart, prole de Seu Nilson e Dona Nair Leonhart.

Nilson Leonhart, chegou no Paraná em 1964, morou em Santa Helena/Missal, e no ano de 1980 chegou em Medianeira. Em 1983, mudaram para a casa onde hoje fica localizado o galpão com todas as lembranças e características que Nilson deixou. Ele faleceu no ano de 2016 e deixou um lindo legado de amor e culto as tradições gaúchas. Dona Nair faleceu em 2010.

Dona Nair uma companheira de vida e defensora da causa tradicionalista, muito festeira acompanhou o marido até ficar doente. Seu Nilson, um ato de coragem por si só, mantinha viva em sua vida a tradição. Foi Coordenador da 12ª Região Tradicionalista por muitos anos, sempre envolvido nas causas do gaúcho: "Para ele era uma filosofia de vida, ele chegou a se envolver no desenvolvimento administrativo, para organizar em nível estadual e federal. Ele gostava que as pessoas expressassem o sentimento através de vestimentas, do receber, da comida", comenta Nérrison.

Um detalhe importante de Nilson, citado pelos filhos, é de que a maior bronca que ele tinha era de que as pessoas iam ao CTG sem estar trajados (pilchados) adequadamente como manda a tradição: "Ele dizia que isso era mesma coisa que ir de calção de banho para a igreja. Celebre o espaço, celebre a sua tradição. O que ele queria dizer era para aproveitar o momento sempre que possível. Faça o movimento gaúcho continuar em movimento", explicam.

Os dois tentaram definir qual foi o primeiro contato com a tradição gaúcha em suas vidas: "Entender eu não entendo até hoje, só sinto e deixo acontecer. Mas a primeira vez que fui para um CTG, lembro que o Pai conseguiu comprar duas bombachas, uma para mim e uma para o Leandro, e ele nos levou para um Fandanguinho, na tarde de Domingo em Matelândia. Quando chegamos lá, pouco depois ele aparece com uma menina e diz 'vai dançar'. Ela deve me odiar até hoje, de tanto que pisei no pé dela", relembra Nérisson.

Já Rodrigo, o mais novo dos irmãos, lembra de um detalhe curioso: "Em dia de baile, lembro de ir pilchado. Nossa iniciação foi nas invernadas, e lembro que nos bailes ia junto com meus pais, eles levavam um pelego ( que é a pele da ovelha/carneiro, utilizado para forro na montaria de cavalos)  junto, em uma altura do campeonato comia um pastel, tomava um guaraná e deitava em baixo da mesa e dormia até o final do baile".

Os filhos continuaram seguindo a tradição naturalmente: " Não lembramos de serem obrigados a seguir, mas sempre estimulados. Nunca foi uma obrigação, nosso irmão que está em São Paulo, sente muita falta de poder viver a tradição. Lá existe um certo preconceito, aqui a gente usa para fazer as coisas do dia a dia, e percebemos que quando chegamos de bombacha nos lugares o tratamento que você recebe é com muito respeito. Sempre tem os engraçadinhos, mas contornamos a situação. Esse sentimento de poder usar a bombacha e falar que somos gaúchos é muito bom".

O Galpão Dona Nair, assim batizado por Nilson, se tornou um ponto de encontro para os amigos, inclusive quando Rodrigo (responsável por cuidar do local) não está em casa: "Todos se respeitam, e sabe onde está a chave do 'cofre', isso aqui é um lugar de encontrar amigos e festejar", comentam mostrando o bilhete que um casal de amigos deixou quando se hospedaram no local, quando Rodrigo viajava.

A TRADIÇÃO CONTINUA

Nérisson é casado com Sonia, e ela conta como foi conhecer o lado tradicionalista da família: "Passei a frequentar os bailes, e achar aquilo muito legal. Usar vestidos, se preparar, era uma novidade. Comecei a frequentar os eventos da família, e passei a fazer parte". Importante destacar que após muitos anos juntos, os dois casaram-se em uma cerimônia gaúcha, com tudo que se há direito.

A primogênita do casal nasceu no Mato Grosso do Sul e eles relembram que uns dias antes dela nascer, Sonia ainda dançou um rodeio: "Éramos professores de dança, era nossa profissão".

Rodrigo namora com Jaqueline, e a história dos dois iniciou por conta da bombacha: "Ela estava em um barzinho com as amigas, eu cheguei no local de bombacha, comprei uma cerveja. Ela gosta muito da tradição, já participou de vários eventos importantes. Quando ela me viu de bombacha, pediu para a dona do estabelecimento se ela conhecia. Trocamos telefones, passamos a conversar e estamos juntos desde então".

NOVOS FRUTOS

Julia Leonhart é um dos principais nomes do CTG Sentinela dos Pampas de Medianeira, filha de Sonia e Nérisson, irmã de Renata, neta de Seu Nilson e Dona Nair, estudante de psicologia.

Ela já foi destaque em vários concursos, campeonatos, invernadas e participa ativamente das atividades do CTG. Em seus 19 anos, garante que a tradição gaúcha é algo natural para sua vida: "Desde que me conheço por gente eu estava lá dentro. Muitos contam que me viam bem pequeninha dormindo em um pelego embaixo das mesas nos bailes". A mãe diz que o primeiro rodeio que a menina participou foi aos seis meses de idade.

Julia conta o momento em que percebeu que seguir a tradição era parte de sua essência: "Houve um momento muito importante, quando meus pais pararam de dar aula no CTG, em 2009. Até então era levada por eles, a partir disso, eu precisei ir porque gostava, com minhas próprias pernas. Foi aí que eu comecei a entender o que isso significaria na minha vida".

Poucos dias antes da entrevista, Julia e Renata foram um evento no Rio Grande do Sul, em comemoração ao aniversário de Paixão Cortes, com emoção ela conta sobre esse momento: "Quando ele entrou, eu comecei a chorar, já vive outros grandes momentos dentro da tradição, mas é algo que não tem explicação. É um sentimento que não explicamos. Levo isso muito forte comigo, não apenas dentro do CTG, mas na minha vida em todos os lugares, me reconhecem por isso".

Ela toca gaita, violão, canta, declama, e por onde vai leva seu chimarrão: " Represento o CTG desde os 6 anos. Já fui prenda mirim da região, prenda juvenil do estado. Atualmente, represento cantando, declamando e tocando gaita. Já dei aulas, dancei. Também sou diretora cultural do CTG e diretora artística da região. O CTG é minha segunda casa".

Os pais orgulhosos, falam sobre as escolhas das filhas: "A gente se sente orgulhosos, porque são escolhas delas. Quando percebemos elas estavam envolvidas, fazendo coisas relacionadas a isso. E qual é o pai que pode dizer com certeza que seus filhos estão em um bom caminho porque escolheram isso? Nós dois somos muito felizes por isso".

Na contramão de uma geração que tem outros gostos, Julia explica por se mantem viva na tradição: "A convivência dentro da tradição é muito sadia. No meio de muitos tradicionalistas tu se sente à vontade, é acolhedor. Tu tens uma identificação imediata, que mesmo sem conhecer a pessoa, ao aproximar-se por conta das características e estilo de vida, é como se conhecessem a muito tempo".

Renata, a mais nova da turma, já é prenda mirim e participa de rodeios, concursos, invernadas e tem se destacado. Seguindo os passos dos pais e da irmã, tem a tradição gaúcha como uma escolha em sua vida. Com 12 anos, ela monta seu álbum de vivência, com fotos de momentos marcantes de sua vida no tradicionalismo.

" A cultura gaúcha tem muitos valores, da hospitalidade, do respeito, honestidade, caráter. São esses valores que tentamos levar para nossa vida".

MORTE DE 'VEIO' NILSON

O velório de Seu Nilson foi uma celebração gaúcha, a pedido dele, o momento foi de muita emoção e culto a tradição mais amada e respeitada por ele durante toda a sua vida: "Estávamos tranquilos, sentimos a morte dele chegando, e ele também. Estávamos os três irmãos e conseguimos fazer tudo aquilo que ele havia nos pedido. A coisa mais estranha que ouvimos no dia do velório foi do colaborador da funerária, que aquele era o velório mais lindo que havia participado. As pessoas tocavam, cantavam, foi algo muito acolhedor, com sentimentos, com alegria, declamações, trova do Waldomiro Garcia, algumas homenagens. Teve gente que filmou o velório".

Neide, companheira de Seu Nilson depois que ele ficou viúvo, entrou para a família e até hoje mora na casa que era dele. Ela não era uma seguidora da tradição, mas depois que se juntou ao companheiro passou a participar ativamente, inclusive com peças no galpão, que vieram de sua família: " Participei de rodeios, cavalgadas, ia nos bailes com ele. Isso era a vida dele, isso é o que ele era. Ele não gostava de que as pessoas não respeitassem a tradição. Quando ele me conheceu ele me disse que estaria sempre de bombacha no inverno. Conheci ele pilchado, e enterramos ele pilchado. Foram oito anos ao lado dele. Que me lembro vi ele ficar uns 20 dias sem participar dos eventos e encontros, mesmo doente ele ia. Ele deixou um bom legado, antes de falecer ele gravou um vídeo falando sobre isso". O vídeo tem Nilson agradecendo a vida, a família, de forma natural, falando sobre a tradição. Eles costumam dizer que era um prenuncio de despedida: "Foi algo maravilhoso, um momento incrível, que nós nunca iremos esquecer".

 

QUANDO SE ASCENDE O LAMPIÃO, SE APAGAM AS APARENCIAS, A ALMA MOSTRA A ESSENCIA, REINA A PAZ E A IGUALDADE. DIANTE DE TANTAS VAIDADES, CADA UM CANTA SUAS DORES DIANTE DE TANTOS VALORES, SE DESTACA O DA AMIZADE! (Luiz Gasparetto)

 

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